sexta-feira, 25 de abril de 2008

Da série: "que que cê tá lendo aí?"

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Quem se eu gritasse, me ouviria pois

Entre as ordens dos anjos?

E dado mesmo que me tomasse

Um deles de repente em seu coração,

eu sucumbiria ante sua existência mais forte.

Pois o belo

não é senão

o início do terrível,

que já a custo suportamos,

E o admiramos tanto

porque ele tranqüilamente

desdenha destruir-nos.


Cada anjo é terrível.

E assim me contenho pois,

e reprimo o apelo de obscuro soluço.


Ah! A quem podemos recorrer então?

Nem aos anjos nem aos homens,

E os animais sagazes logo percebem

Que não estamos muito seguros

No mundo interpretado.

Resta-nos talvez

Alguma árvore na encosta

que diariamente possamos rever.

Resta-nos a rua de ontem

E a mimada fidelidade de um hábito,

Que se compraz conosco e assim fica e não nos abandona.

Ó e a noite, a noite, quando o vento cheio dos espaços do mundo desgasta-nos o rosto

-, para quem ela não é /sempre a desejada,

Levemente decepcionante, que para o solitário coração

Se impõe penosamente.

Ela é mais leve para os amantes?

Ah! Eles escondem apenas um com o outro a própria sorte.

Não o sabes ainda?

Atira dos braços o vazio

Para os espaços que respiramos;


talvez que os pássaros

Sintam o ar mais vasto

num vôo mais íntimo.


Sim, as primaveras precisavam de ti.

Muitas estrelas esperavam que tu as percebesses.

Do passado erguia-se uma vaga aproximando-se,

ou ao passares sob uma janela aberta,

Um violino se entregava.

Tudo isso era missão.

Mas a levaste ao fim?

Não estavas sempre

distraído pela espera,

como se tudo te ansiasse a bem amada?

(onde queres abrigá-la então,

se os grandes e estranhos pensamentos

entram e saem em ti

e muitas vezes ficam pela noite.)


Se a nostalgia te dominar, porém,

cantas as amantes;

muito ainda falta

para ser bastante imortal

seu celebrado sentimento.

Aquelas que tu quase invejaste,

as desprezadas, que tu achaste

muito mais amorosas que as apaziguadas.

Começa sempre de novo o louvor jamais acessível;

Pensa: o herói se conserva,

mesmo a queda lhe foi

apenas um pretexto para ser:

o seu derradeiro nascimento.

As amantes, porém,

a natureza exausta as toma

novamente em si,

como se não houvesse duas vezes forças para realizá-las.

Já pensaste pois em Gaspara Stampa

O bastante para que alguma jovem,

A quem o amante abandonou,

diante do elevado exemplo dessa apaixonada,

sinta o desejo de tornar-se como ela?


Essas velhíssimas dores afinal não se devem tornar

Mais fecundas para nós?


Não é tempo de nos libertarmos,

Amando,

do objeto amado e a ele tremendo

resistirmos

como a flecha suporta à corda,

para, concentrando-se no salto

ser mais do que ela mesma?


Pois parada não há

em parte alguma.


Vozes, vozes.

Escuta, coração

como outrora somente os santos escutavam:

até que o gigantesco apelo levantava-os do chão;

mas eles continuavam ajoelhados, inabaláveis, sem desviarem a atenção:

eles assim escutavam.

Não que tu pudesses suportar a voz de Deus, de modo algum.

Mas escuta o sopro,

a incessante mensagem que nasce do silêncio.

Daqueles jovens mortos sobe agora um murmúrio em direção a ti.

Onde quer que penetraste, nas igrejas

De Roma ou de Nápoles,

seu destino não falou a ti, tranqüilamente?

Ou uma augusta inscrição não se impôs a ti

Como recentemente a lousa

em Santa Maria Formosa.

Que eles querem de mim?

Lentamente devo dissipar

A aparência de injustiça que às vezes dificulta um pouco

O puro movimento de seus espíritos.


Certo, é estranho não habitar mais terra,

Não mais praticar hábitos ainda mal adquiridos,

Às rosas e outras coisas especialmente cheias de promessas

Não dar sentido do futuro humano;

O que se era, entre mãos infinitamente cheias de medo

Não ser mais,

e até o próprio nome

Deixar de lado como um brinquedo quebrado.


Estranho, não desejar mais os desejos.

Estranho, ver tudo o que se encadeava esvoaçar solto no espaço.

E estar morto é penoso

e cheio de recuperações, até que lentamente se divise

Um pouco da eternidade.

- Mas os vivos

Cometem todos o erro

de muito profundamente distinguir.

Os anjos (dizem) não saberiam muitas vezes

Se caminham entre vivos ou mortos.

A correnteza eterna

Arrebata através de ambos os reinos

todas as idades sempre consigo

e seu rumor as sobrepuja em ambos.


Finalmente não precisam mais de nós os que partiram cedo,

Perde-se docemente o hábito do que é terrestre,

como o seio materno suavemente se deixa, ao crescer.

Mas nós que de tão grandes mistérios precisamos,

para quem do luto tantas vezes o abençoado progresso se origina

- : poderíamos passar sem eles?

É vã a lenda de que outrora, lamentando Linos,

A primeira música ousando atravessou o árido letargo,

Que então no sobressaltado espaço,

do qual um quase divino adolescente

escapou de súbito e para sempre,

o vazio entrou naquela vibração

que agora nos arrebata e consola e ajuda?


- Primeira Elegia das "Elegias de Duíno", de Rainer Maria Rilke, vulgo "o cara".

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